A distração custa caro. E cobra
juros de insônia.
Aurélio experimentou 20 dias na
residência da sogra, Nanda, em Balneário Camboriú. Com a sogra dentro do
apartamento, é óbvio.
É o momento em que sua mulher,
Elis, vira filha e não faz mais nada. Realmente descansa. Come, dorme, assiste
a filmes, vai para praia. No sol seguinte, repete a dose. O Dia da Marmota que
as misses desejam, e não se enjoam.
A marmota era ele: gordo, barbudo,
sonolento e pele tostada.
A preguiça da esposa contagiou
sua vitalidade farroupilha. Não foi só uma manhã em que despertou ao meio-dia.
– O excesso de saúde me estraga.
Assim como sono demais me deixa inchado e com olheiras – costumava resmungar.
Odiava Domenico de Masi e a
baboseira do ócio criativo. Na prática, constatava o contrário: a aparência
masculina piora com o lazer. Todo homem descansando perde o rosto e ganha
retrato falado. Inicia a temporada saudável e termina as férias com cara de foragido
da polícia catarinense.
Aurélio cometeu o maior vexame de
sua vida no almoço de sexta. Sem Elis, que prometeu sair para compras, acordou
desprotegido, com os socos da sogra na porta:
– Comida na mesa! Vem logo! Tá
pensando que é a casa da sogra? – gritou, debochada.
Pelado debaixo dos lençóis, ele
pegou a primeira sunga que encontrou na gaveta e correu afobado para a sala,
consciente de que Nanda era pontual e não tolerava enrolações.
No litoral, é permitido comer com
roupa de banho. Não é grosseria, atentado violento ao pudor, desprezo
anarquista.
O problema é que – no torpor do
sono – Aurélio apanhou uma cueca listrada no lugar da sunga. E sentou quase
pelado com a sogra, o cunhado, um casal de tios e algumas pessoas a que não
teve tempo de ser apresentado.
O grupo olhava o genro com
censura. O cunhado perguntou se ele frequentava praia de nudismo. Aurélio não
captou a ironia, mesmo com os risinhos coletivos e contidos de Muttley.
Confessou que carecia de coragem para jogar frescobol com o troço balançando.
Os comensais foram se
constrangendo e afastando o prato.
Aurélio levantou para buscar o
suco, juntou faca que caiu no chão, desfilou intensamente pela cena do crime.
Almoçava de cueca e ninguém falou nada.
Identificou a gravidade da
atitude quando a esposa mandou que preparasse as malas.
– Já vamos?
– Você vai! Tá pensando que a
casa da sogra é motel? Me viu almoçar de calcinha diante de sua família?
Não adiantou alegar que não fora
intencional. Ainda mais a uma terapeuta. Qualquer erro pode ser um ato falho.
– Aurélio, não acredita em
inconsciente? Sentiu ciúme da minha tranquilidade, do meu luxo de rainha,
encontrou um jeito de arruinar a confiança da mãe e ir embora.
Ela estava coberta de razão. O
inconsciente é o padrasto do pecado.
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Autor: Fabrício Carpinejar, jornal Zero Hora.
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esse é o problema do litoral, aqu no rio andar de sunga o dia todo é comum, mas estamos sujeitos a essa gafes..
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